O GLOBO - Panorama Econômico
Publicado em 09 de outubro de 2005
Meu Rio
A primeira vez
que vim ao Rio tinha 20 anos, havia acabado de sair de uns meses na prisão num
quartel do Exército, em Vitória, estava grávida e vinha visitar o pai do meu
filho preso na Vila Militar. A segunda vez foi para o “sumário de culpa”, uma
etapa do Inquérito Policial Militar a que eu respondia. As dez primeiras vezes
que vim ao Rio foram sempre nessas circunstâncias.
Guardo destas primeiras visitas uma sensação de contradição: a estonteante
beleza do Rio não combinava com a opressão daquele tempo. O aberto do mar, o
verde amplo, o levemente ondulado do aterro me lembrava liberdade. Era o cenário
certo para o enredo errado. O Rio era lindo, mais do que havia imaginado antes
de conhecê-lo. Na última daquelas visitas, vim para o julgamento.
Fui ver a advogada naquela manhã de domingo para uma última conversa antes do
julgamento. Ela deu instruções objetivas sobre riscos e chances no tribunal
militar, e um carinho contido, na sala da sua casa aconchegante no Cosme Velho.
Andei pelo bairro, na volta, fabricando o sonho de morar numa casa no Rio.
Realizei o sonho muitos anos depois.
O espanto diante da beleza explícita do Rio me aconteceu sempre, a cada visita,
mesmo depois destes estranhos encontros iniciais. Morei em São Paulo no começo
dos anos 80. Não quero cuspir no prato em que comi — e, aliás, como comi bem! —
mas São Paulo não é exatamente bonita. Tem seus momentos. Tem cantos
conquistados por quem tem persistência e sensibilidade. Mas, naquela época, me
acostumei com São Paulo e comecei a achá-la até bonita, sob certo ponto de
vista. Porém, quando vinha ao Rio, tinha, de novo, o impacto inicial de surpresa
e encantamento com a beleza extrema.
Antes de tudo isso, na minha infância, o Rio era o sonho distante e, ao mesmo
tempo, presente. Em Caratinga, tinha os olhos voltados para o Rio. Quando a
televisão chegou pela primeira vez à minha casa, eu via não a TV Alterosa de
Minas, mas a TV Tupi do Rio. Quando a enchente encheu o Rio, acompanhei tudo,
aflita, pela recém-nascida TV Globo. Quando me viciei em leitura de jornais, aos
15 anos, não era o “Estado de Minas” que lia, mas O GLOBO, que chegava lá mais
cedo. Quando algum conhecido vinha ao Rio, encomendava o JB. Meus olhos sempre
no Rio, mesmo que tenha sido assim, tarde e triste, o primeiro encontro.
Mas não foi tarde demais. Quando tive uma oferta para vir, por três meses, para
fazer um trabalho temporário, desembarquei com o coração de mudança. Estou aqui
há 20 anos. O Rio é desses amores da vida inteira. Não quero deixá-lo, sinto
sempre o frescor dos primeiros encontros. Não deixo de amá-lo, nem ao ver os
sinais visíveis do avanço dos problemas insolúveis.
Quando me instalei aqui com filhos e pertences, em meados dos anos 80, os fins
de semana da família eram pura alegria. Um dia, visitar o Jardim Botânico; no
outro, a Floresta da Tijuca; nos dias ensolarados, praia, que ninguém é de
ferro. A descoberta que fazia naquelas incursões mais profundas na paisagem era
com a incrível resistência da Natureza no Rio. Entendi que o verde do Rio é
teimoso. Agredido por 500 anos, ele sobrevivia exuberante. Cenas de flora e
fauna, extintas em outros espaços urbanos, resistiam no Rio.
Hoje eu o sinto cansado de resistir. A cidade parece, às vezes, oprimida. Não
por aquela opressão externa dos anos 70. Parece vir de dentro.
Líderes políticos da cidade ou do estado — as coisas se misturam muito aqui, e
com freqüência — são péssimos; com raras exceções. Ou são populistas, ou são
bizarros, ou administradores incompetentes, ou todas as alternativas anteriores.
A cidade, às vezes, deixa-se hipnotizar por intensos debates sobre falsos
problemas: cachorro bravo deve ou não andar com focinheira, os consumidores de
shopping devem ou não pagar o estacionamento. Temas lunáticos numa cidade onde a
violência cresce; onde parte do território está sob controle de bandidos; onde
tudo pode acontecer, inclusive um tiro desorientado atravessar o caixão num
cemitério, ratificando a morte. É óbvio que a classe média deve pagar pelo
estacionamento dos shoppings e que os transeuntes devem ser protegidos dos cães
ferozes, mas levam-se meses discutindo o assunto, como se todo o resto já
estivesse resolvido e, portanto, só restassem as platitudes.
Há temas complexos que devem reter nossa atenção, como o das favelas. Não há
solução simples. Elas devem ser contidas porque estão destruindo o que resta da
exuberante mata que protegia, refrescava e embelezava o Rio, desde sempre. Não
porque estragam a vista da Zona Sul, mas porque regras e limites precisam ser
respeitados numa cidade que a desordem está tragando. O que há de pior nas
favelas é estarem seus moradores, cidadãos de bem, submetidos a uma minoria
tirânica ou à truculência policial. Não há alternativa de moradia popular e bom
sistema de transporte, por isso é difícil contê-las. Elas cresceram tanto — e
ainda crescem — porque regras e leis foram desrespeitadas; as mesmas regras e
leis desrespeitadas por condomínios de luxo ou boas casas que ocuparam terrenos
públicos e avançaram impunemente sobre o verde.
José Júnior, que nasceu em Bonsucesso, cresceu no Centro e é coordenador do
AfroReggae, grupo que nasceu em Vigário Geral, tem uma frase que me acalma. “Não
acredito em caso perdido.” É por isso que continuo achando que o nosso Rio, um
dia, vai melhorar. Nessa esperança me despeço por duas semanas, mas já volto.
Não consigo ficar longe. Vocês ficarão bem acompanhados, com Flávia Oliveira,
que já conhecem bem.
Miriam Leitão