Publicado em 18 de dezembro de 2004
Arnaldo Bloch
Como era gostosa minha capivara
Ela apareceu num sonho, saída da bruma como sombra, e me saudou num russo safado
com sotaque meio-carioca, meio-pantaneiro:
— Kak dylà, Aron Leonovitch Bloch? (Como vai, Arnaldo Bloch?)
— Gavari, Capivara! (Fala, capivara!)
— Capivara? Nunca mais. Aqui me chamam Capivodka.
— Mas o que aconteceu? Você está completamente mudada! Ou mudado?
— Não sei. Da metamorfose, herdei essa e outras dúvidas fundamentais.
— Então isto não é um disfarce de urso?
— Não. Quando emergi do Mar Negro e pisei em Odessa, recolheram-me ao quintal de
uma hospedagem e serviram-me sopa de beterraba. Exausta, adormeci na relva
gelada e acordei cedo com o maior calorão. Fui beber água num rio próximo e,
quando vi o reflexo na superfície, já estava assim.
— Mas como é que você foi parar aí?
— A nado, inteligência rara!
— Cacilda! Voluntariamente? Ou foi tragada por uma misteriosa corrente em Duque
de Caxias, sua anta!?
— Imbecil! Mergulhei no Rio São João de Meriti, atingi a Baía de Guanabara,
investi oceano adentro e fui na maciota, parando nas costas de mar em mar, de
bar em bar, à procura de Mr. Goodbar, até chegar.
— Mas afinal... por que você deixou a Lagoa? Por que desistiu de Caxias? Por que
abandonou o seu Brasil capivareiro?
— Não agüentava mais aquela cidade, a mídia, o assédio, a cultura de
celebridade, a curiosidade alheia, todo mundo me olhando como se nunca tivesse
visto um bicho. A Lagoa é uma jaula, um grande cativeiro. O Rio, um zoológico.
— Entendo. A gente também não agüentava mais você.
— Mentira. Sou amada, idolatrada, cantada em prosa e logo em verso, festejada
como se fosse, de fato, alguma coisa extraordinária. Ora bolas! Sou apenas uma
capivara! E agora, nem isso mais eu sou!
— Não se engane, Capivodka. Há uma horda silenciosa que respirou aliviada com a
sua partida... errr... ufa!
— Horda silenciosa? O que é isso? Uma sociedade secreta? Já tem site? Blog?
— Se tivesse site e blog, não seria silenciosa, inteligência rara.
— Minha intenção era pedir asilo e unir-me ao movimento oposicionista daqui, mas
caí em mãos erradas... a tal da aldeia em Odessa era de carvoeiros, partidários
do reacionarismo reinante.
— E agora? Como vai ser?
— Não sei. Ouvi falar que as autoridades diplomáticas brasileiras estão se
mobilizando para me trazer de volta. E que já há até um blog e um endereço no
Orkut difundindo uma campanha pelo meu regresso.
— Não! Por favor! Não volte! Eu pago o que for necessário, mas fique por aí! Há
todo um futuro inexplorado nas ex-repúblicas soviéticas! Há circos fabulosos por
aí!
— Desnaturado.
— Gorda.
— Arrogante. Jornalista.
— Vamos mudar de assunto: quem teria interesse na sua morte ou transformação? Os
carvoeiros sequer sabiam quem você era!
— Deve ser uma conexão eslava da tal Horda Silenciosa.
— Ou alguém querendo te comer.
— Mais respeito aí, rapá !
— Deixa de maldar, bichona da lagoa! Comer no sentido literal, ratão!
— Urso.
— Ou isso. Sabe, no Pantanal a carne de capivara é muito apreciada.
Ofereceram-me até uma receita, e um biólogo da USP que estava na expedição
acrescentou que, se o Brasil investisse em pastagens de capivara, a fome
acabaria. Estou pensando em mandar um e-mail para o presidente da República.
— Chega! Basta! Vá embora, homem, e me deixe quieta, sim?
— Mas como, se isto é um sonho?
— Um sonho? Mas eu estou aqui! Não sou um sonho! Prove que sou um sonho!
— Não posso. Apesar de este ser um sonho consciente, o acesso ao conteúdo é
bloqueado. Tenho que esperar, como um condenado, o fim do episódio.
— Desculpa para boi dormir, porco-ecologicamente-incorreto!
— Porco é você.
— Sou um roedor.
— Um urso mutante e hermafrodita. Dane-se. Não sou ecologicamente incorreto. Amo
os animais. Mas não sei o que há de ecológico em viver no Rio. Sou radical. A
favor de deixar as florestas intactas. De se tombar o Brasil, deportar os
desmatadores para a Sibéria e deixar quem está no campo ficar no campo, e quem
ficou na cidade que se exploda, que morra empesteado. Abaixo as pousadas!
Resorts! Restaurantes! Madeireiras! Turistas!
— O cara pirou. Acho melhor dar o fora...
— Ursa balofa!
— Segunda Divisão!
— Calma, o jogo é amanhã.
— Humanóide! Bípede!
—Também não precisa ofender! Vamos nos despedir em termos civilizados. Como é o
barrido de uma capivara?
— Esqueci. Agora falo urso. Quer dizer, russo. Não sei mais nada. Só sei que
nada sei.