Confissão
Arthur Dapieve -
O GLOBO 18/06/2004
Tentei acabar com a carreira de Chico Buarque na tarde de 29 de janeiro de 1994.
A carreira futebolística. Numa pelada amistosa entre o Polytheama dele e o nosso
Segundo Caderno. Perdemos. Não me lembro de quanto. Nada vexaminoso. Vexaminosa
foi minha entrada imprudente sobre o dono da voz, da bola, do time e do campo.
A horas tantas, fui afoito marcar o Chico. Vinte anos mais velho e um ano-luz
mais técnico e ágil, ele jogou a bola para o lado e eu, bonde desgovernado,
acertei-o em cheio. Deve ter doído. Conforme o anfitrião se levantava, cara de
poucos amigos, ouvi Antônio Pitanga apelar à beira do gramado: “Pelamordideus,
não faz isso com o nosso Chico!”
Eu fiz. Durante mais de dez anos sublimei a história para que parecesse um mero
lance patético de um beque amador fora de forma, ou seja, de um cara
perfeitamente apto a ser titular da zaga profissional do Botafogo hoje em dia.
Neste caderno em honra ao 60 aniversário de Francisco Buarque de Hollanda,
porém, a última ficha caiu: fiz de propósito. No fundo, minha sórdida intenção
era ser o Mark Chapman do Chico. O Mark Chapman, não, o Márcio Nunes do Chico.
Lembra do jogador do Bangu que quebrou a perna do Zico? É mencionado apenas por
isso: uma triste nota de pé de página na biografia do craque.
Agora enxergo tudo. Num átimo, no campo quente do Recreio, qual um pied noir
armado numa praia da Argélia, devo ter pensado: peraí, este sujeito esguio com a
bola toda compõe pencas de músicas maravilhosas (naquele janeiro pré-Real, com
ingressos a Cr$ 6.000,00, ele fazia no Canecão a temporada do CD “Paratodos”, o
que inclui “Futuros amantes”, que coisa, meu deus, que coisa), escreve o ótimo
“Estorvo” (naquele janeiro ir-Real, ele não tinha publicado nem “Benjamin” nem
“Budapeste”, que reputo o melhor), tem aos seus pés multidões de belas mulheres
(entre elas Marieta Severo e as filhas), enfim, empreende uma trajetória
brilhante, íntegra e discreta...
E ainda por cima joga bem futebol?! Ah, aí é demais. Pau nele.
Saiba ou não, admita ou não, todo homem brasileiro inveja o Chico Buarque. A
inveja, naturalmente, além de ser uma merda, é uma forma doentia de admiração.
Não se deseja só o que o outro tem — berço, gênio, uma bela família, olhos
azuis, um drible difícil de marcar, um apê no Marais — mas também o que o outro
é. Portanto, saiba ou não, admita ou não, todo homem brasileiro gostaria de ser
o Chico Buarque. Ao mesmo tempo, e aqui afinal chego ao meu ponto, o Chico já é
todo homem brasileiro.
Quando diz “o meu pai era paulista/ Meu avô, pernambucano/ O meu bisavô,
mineiro/ Meu tataravô, baiano/ Vou na estrada há muitos anos/ Sou um artista
brasileiro” (em “Paratodos”, a canção), ele não está fazendo um exercício de
retórica nacionalista. Na verdade, dizer que Chico é todo homem brasileiro é,
além de machismo, miopia estética, porque já está suficientemente demonstrada
sua capacidade de também ser, como nenhum de seus pares, toda mulher brasileira,
cedendo-lhe entranhas e voz, como em “Teresinha” ou “Folhetim”, para ficar em
duas músicas incluídas na “Ópera do Malandro”.
Em seus 60 anos de vida e 40 anos de carreira, Chico foi o ghost writer
de tantas de nossas declarações de amor (“Não se afobe, não/ Que nada é pra já/
Amores serão sempre amáveis/ Futuros amantes, quiçá/ Se amarão sem saber/ Com o
amor que eu um dia/ Deixei pra você”, em “Futuros amantes”, que coisa, meu deus,
que coisa), de tantos de nossos protestos contra a ditadura (“Você vai se
amargar/ Vendo o dia raiar/ Sem lhe pedir licença/ E eu vou morrer de rir/ Que
esse dia há de vir/ Antes do que você pensa”, em “Apesar de você”), de tantos de
nossos bilhetes de despedida (“Eu bato o portão sem fazer alarde/ Eu levo a
carteira de identidade/ Uma saideira, muita saudade/ E a leve impressão de que
já vou tarde”, em “Trocando em miúdos”, obra-prima em parceria com Francis Hime).
De tal forma Chico foi nosso ghost writer nas últimas quatro décadas
que, quando li “Budapeste”, não pude deixar de enxergar o seu rosto no
protagonista, José Costa, ghost writer tão talentoso que em pouco tempo
consegue fantasma-escrever até em húngaro; ghost writer tão talentoso
que vê a sua mulher, Vanda, ficar caidinha pela prosa do alemão Kaspar Krabbe,
para quem ele próprio escreveu o best-seller “O ginógrafo”.
Sintam o drama: emprestar, emprestar, não, vender em silêncio as palavras que
serão usadas para conquistar o mundo, inclusive sua amada, qual uma versão
boa-pinta de “Cyrano de Bergerac”. Quantos de nós, homens e mulheres, já não
usamos as palavras de Chico para nossos propósitos? Ainda na semana passada, eu
citava de passagem “Mulheres de Atenas”, dele com Augusto Boal, no meu arrazoado
sobre a capital grega.
Daí a admiração, daí a ponta (ou o pontapé) de inveja, ou melhor, daquele terno
ressentimento que o ser humano guarda de quem lhe fez um grande bem. Chico
Buarque só nos fez bem estes anos todos. Escreveu tanta coisa bonita. Viveu a
sua vida em paz, longe da intrigalhada ou da ânsia pela celebridade máxima. De
certa forma, ele vive as nossas vidas, porque, ao tão gentilmente agraciar-nos
com os seus poemas, tornou-se parte delas. Dar-lhe os parabéns, então, é também,
de fato e de direito, nos congratularmos.