Banana&Etc

novembro 24, 2004

A última sessão de cinema... ou

Já repararam quando somos muito certinhos acabam pegando a gente no flagra?


O ano era 1986, se não me engano. Eu trabalhava numa grande estatal e sempre fui uma profissional responsável, daquelas que só faltava em casos de extrema necessidade, procurava cumprir os horários e jamais usava o tempo de expediente para resolver problemas particulares. Nem todos eram assim, mas eu era.

O Cine Palace, um dos bons cinemas de Juiz de Fora, anunciava o seu fechamento. Uma tristeza enorme tomava conta de mim, pois era frequentadora assídua daquela casa de espetáculos em estilo Art Deco. Fecha, não fecha... o jornal anuncia que o Palace fecharia as portas no dia seguinte. - Meu Deus! A última sessão seria naquele dia, às 5 da tarde! O meu horário de saída do trabalho era às 6, mas como perder a última sessão do Palace?

Bem, era caso de vida ou morte (ah, se era), então inventei uma boa desculpa e lá fui eu assistir "As duas faces da felicidade" (Le Bonheur, 65), da cineasta Àgnes Varda. Havia umas 10 pessoas no cinema. Passados alguns minutos, entra um fotógrafo com uma enorme câmera e começa a disparar um baita flash que quase cegou meus assustados olhinhos. PQP, pensei eu, o que será que esse cara vai fazer com estas fotos? Logo depois as luzes se apagaram e o filme começou.

Envolvida pelo belíssimo quinteto para clarinete de Mozart, junto a beleza das imagens campestres, relaxei e comecei a curtir o filme - uma composição onde Àgnes tenta descobrir o que é o desejo masculino e o ideal de felicidade a dois. Filmaço do auge da nouvelle vague que eu não poderia mesmo perder.

Dia seguinte, abro o jornal da cidade e lá estava eu na primeira página, na "Última Sessão do Palace", no horário de trabalho. É mole?

 Cine Palace

A propósito, 15 anos depois o cinema foi reaberto depois de passar por uma bela reforma e hoje tornou-se o Espaço Unibanco Palace.

Em 96 minha empresa foi privatizada e sou, até hoje, uma das poucas "sobreviventes" da era estatal. Nunca me arrependi do meu comportamento profissional, muito menos de ter ido àquela sessão de cinema.

O post de hoje é dedicado à Marina W.. Mais de um ano atrás ela disse no Blowg: "Helô, minha companheira de serenatas na madrugada, num certo botequim top secret, essa é a graça dos blogs, as transmissões de pensamento"... Faz tanto tempo que eu já nem tenho certeza que papo era este. Talvez Santos Dumont... Guimarães Rosa... sei lá. Você não pode perder o lançamento do livro "O Caderno de Cinema da Marina W.", dia 30, a partir das 8 da noite, na Livraria da Travessa (Rio).

novembro 14, 2004

Primaveras
(Atualização - hoje, dia 16, tem bolo no Happy)

Pois é, crianças, nas minhas férias, quando fui cuidar um pouquinho de mim mesma, acabei me descuidando de algumas datas importantes. Ainda bem que sou "banana com avéia", pois fica mais fácil justificar o esquecimento.

Deixo um abraço muito carinhoso aos amigos Marco e Claudia Letti, que juntos fizeram aniversário no dia 22 de outubro. Com seus blogs Interlóquio e Afrodite, respectivamente, os dois nos mostram quase diariamente o quanto possuem de sensibilidade, talento, emoção e carisma - basta abrir os comentários. Nossa querida Mônica fez um post belíssimo exaltando as qualidades do Marco. A Claudia, nossa Afrodite, dispensa comentários, mas certamente não dispensará a sua presença no lançamento de seu livro "Onde não se responde", dia 25/11.

Semana passada, mais dois amigos comemoraram aniversário também. Do Guto Galli, gentileza em pessoa, foi dia 11. Eu não me esqueci, mas cheguei muito tarde em casa e não tive tempo de fazer um bolinho pra ele. - Guto, torço todos os dias pela sua rápida recuperação, faz tempo que o Porpeta é um dos meus favoritos. O Bion entra nos comentários e diz: "Helô, no último dia 10/11/04 eu completei mais uma primavera!". Ê Banana! Logo do Bion? Tão carinhoso, atencioso, tão presente aqui no blog... tsc, tsc, tsc.

Bem que a Carminha um dia me disse: "O que vc acha de colocar uma janelinha do Bloglet lá no Happy Blogday? Seria uma maneira da gente não perder os aniversários dos colegas blogueiros, né?" Mas eu ainda não coloquei, então decidi arranjar uma Anja da Guarda chamada Luciana pra me ajudar. Se eu me esquecer de mais alguém a culpa é da Lu, hohoho. Brincadeirinha. Vocês também me ajudem aí, por favor. Entrem nos comentários e encomendem seus bolos, eu faço e coloco no Happy, ok?

Aos aniversariantes, flores e poesia!


Desenho: Silva Costa

(...) Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação. Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera. (Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 365)

novembro 11, 2004

BOLO!

Tô cum sono, amanhã falo mais sobre aniversários.

novembro 7, 2004

E por falar em saudade, onde anda você... Sérgio Ricardo?

Estava aqui pesquisando na estante o que tenho sobre Sérgio Ricardo: o livro "Elo: Ela" e alguns LPs. Depois fui ao Google na tentativa de encontrar algo relevante e significativo sobre este cantor, compositor, instrumentista, poeta, pintor e cineasta por quem sinto enorme admiração. Sérgio tem uma voz que mexe com a minha emoção, uma força que arrebata meu coração. Encontro na coleção "Nova História da Música Popular Brasileira" (1970) uma definição perfeita sobre ele, dita pelo Ziraldo:

Sérgio não estourou em termos de massa. Certamente jamais irá estourar. Não que sua música seja elaborada demais, sofisticada ou impenetrável; o mistério é outro. Sua honestidade consigo mesmo chega a exageros que o definem como um dos seres humanos mais puros e de melhor caráter que eu já conheci na minha vida. Seu pavor à mentira, à mistificação, ao engano e à hipocrisia criaram em sua volta uma certa impenetrabilidade que é a sua forma de se defender do mundo.

Sérgio realmente não estourou em termos de massa, mas para mim ele sempre foi e será um estouro! Sua obra tem uma qualidade excepcional, mas nosso país costuma tratar com silêncio artistas geniais como Sérgio Ricardo. Quantos conhecem A Noite do Espantalho? Pois saibam que este fime, uma "rapsódia nordestina", ganhou, entre outros, prêmio de qualidade do Instituto Nacional do Cinema; Coruja de Ouro para a fotografia de Dib Lutfi (seu irmão) e para a trilha sonora de Sérgio; um dos 15 melhores filmes do ano, por indicação da Academia de Cinema de Hollywood; e foi apresentado na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes e no Festival de Cinema de Nova York. Sei de cor a trilha sonora do filme, de tanto escutar...

Das músicas, tenho algumas preferidas. De Ponto de Partida tirei um refrão que costumo usar como preceito:

Tenho pra minha vida A busca como medida O encontro como chegada E como ponto de partida
 Ponto de Partida - Desenho: Henfil


O meu lado romântico não poderia esquecer O Nosso Olhar (clique e escute um trechinho), que toca o coração e a sensibilidade.

Viu, como basta pouco Para amar-se muito Um luar bonito Uma noite quieta E o olhar tão puro Deste nosso olhar

E do livro de poesias Elo:Ela, destaco:

Por onde andávamos quando éramos estranhos? Quem sabe estivéramos perto a ponto de nos tocar? No calor de nosso corpo alongaríamos tantos momentos a infinitos alcançáveis

Entre colcha e travesseiro de peito batendo de carne a carne de intensidade de ser de ser de ser de ser como somos agora

Quem quiser saber mais sobre o artista - Biografia, Dados Artísticos, Discografia, Obra, Shows e Crítica - eu recomendo o excelente Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. A pintura você encontra no site Niterói Artes. Vale a pena relembrar ou conhecê-lo melhor!

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..."comecei a deixar meus rastros por aí, em blogs que leio. Mas não cheguei nem na metade. Gosto de ler tudo... então vocês vão tendo paciência, viu?"... (descaradamente copiado da ) Beijos a todos e boa semana!