Banana&Etc |
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abril 28, 2004
Cecília Meireles Como pequena flor que recebeu uma chuva enorme e se esforça por sustentar o oscilante cristal das gotas na sêda frágil, e preservar o perfume que aí dorme, e vê passarem as leves borboletas livremente. e ouve cantarem os pássaros acordados sem angústia, e o sol claro do dia as claras estátuas beijando sente, e espera que se desprenda o excessivo, úmido orvalho pousado, trêmulo, e sabe que talvez o vento a libertasse, porém a desprenderia do galho, e nesse temor e esperança aguarda o mistério transida - assim repleto de acasos e todo coberto de lágrimas há um coração nas lânguidas tardes que envolvem a vida. (Vaga Música)
Com esse doce e sensível poema de Cecília Meireles retorno à minha rotina. Assim é a vida, repleta de acasos, mas as lágrimas não são de tristeza - são de emoção e agradecimento pelo carinho recebido. Papai está bem, sereno, confiante e recebendo os cuidados de toda a família. Agora parece que tudo passou muito rápido, mas nos primeiros dias cada minuto parecia durar horas. Aos poucos vou visitar cada um de vocês, mas saibam que a solidariedade, as palavras de afeto, cartões e mensagens de apoio foram importantíssimos para que pudéssemos enfrentar um problema grave com mais coragem, fé e esperança. Fiquem com Deus. Beijos e obrigada.
Deixo registrado aqui os 90 anos de Dorival Caymmi e os 80 de mestre Iosif Landau, que eu fiquei sabendo lá no Livro de Antíteses da Andréa. Mas temos outros aniversários lá no
abril 3, 2004
De amor e medo Todos nós temos algum tipo de medo, mas eu nunca havia passado por medo tão grande como o dos últimos dias. Medo de perder aquele que chorou de emoção quando nasceu sua primeira menina, depois de dois meninos. Medo de perder quem vibrava quando a mesma menina, ainda muito criança, dançava em cima da electrola ao som dos "Pobres de Paris". Medo de que não estivesse mais entre nós quem trocou muitas das nossas fraldas e nos aplicou injeções para que tivéssemos alívio nas infecções de garganta. Medo de perder quem foi às vezes severo, mas que durante o ano inteiro economizava para que passássemos as tão sonhadas férias de verão em Copacabana. Eu tive medo sim, de não ter mais quem sempre foi exigente nas questões de educação, de bons modos, de alimentação sadia, de impor limites, de ensinar que existe o sim e o não e que ambos eram importantes para que nos tornássemos cidadãos dignos e responsáveis. Medo de perder aquele que não se importava em dormir na beirinha da cama para que, em noites de outros medos, pudéssemos ficar aconchegados entre ele e mamãe. Eu tive medo de olhar as fotos antigas: a bailarina em seu colo num baile de carnaval, mesmo ele detestando carnaval, fazendo pose na praia com a mão no meu ombro, as formaturas, os aniversários e almoços de fins de semana, dançando a valsa comigo no baile de debutantes ou afagando a minha mão enquanto conduzia-me ao altar. Eu tive medo de perder aquele de quem sou cria cuspida e escarrada, o gênio parecido, a teimosia parecida, a cor dos cabelos, a pele clara, a timidez, a facilidade para a matemática e o desenho geométrico, o enrubescimento na hora de rir ou chorar, ah.... mas que pena eu não ter herdado aqueles olhos verdes, aquellos ojos verdes, serenos como um lago. Eu tive um medo enorme de não poder mais besuntar o seu corpo de filtro solar nas temporadas de praia e aproveitar deste momento para afagar o seu peito coberto por densos e macios pêlos brancos, o mesmo peito que ontem foi aberto e escancarado para que um grave defeito fosse consertado. Mas que defeito poderia ter um coração tão humano e tão cheio de amor como o do meu pai? Mas ele foi forte, tranqüilo, e mais uma vez nos ensinou que é preciso acreditar e ter fé, seja ela qual for. E lá está ele na UTI, firme, retirando a máscara de oxigênio e esticando o pescoço para perguntar à moça do leito em frente se ela está se sentindo melhor, reclamando que tiraram-lhe o bigode, mas feliz com a notícia de que amanhã irá para o quarto. E agora uma paz muito grande está dentro de mim e eu não tenho mais medo de não poder mais ouvir de meu pai: - Oi Helô/Lolô/Loló, tudo bem com você?
Amigos queridos Obrigada a todos pela força e pelas palavras carinhosas. Papai ainda está na UTI, teve pequenos problemas e os médicos acharam melhor segurá-lo por lá mais uns dias. Mas não foi nada grave. Tenho ido visitá-lo todos os dias e ele tem sido um verdadeiro "paciente". Mais uma lição para nós, está resignado, confiante e não tem reclamado de nada (a não ser a falta do bigode). Já sabe o nome do pessoal da enfermagem e parece-me que a turma simpatizou-se com ele também. Os dias têm sido longos e a expectativa grande, mas a fé e o estímulo dos amigos e parentes têm sido muito importante para que a gente não desanime. É claro que às vezes bate uma melancolia, mas passa rápido, mesmo porque o pior já passou. Beijão carinhoso pra todos.
Papai saiu da UTI!
De volta pra casa Mais uma etapa vencida, papai saiu hoje do hospital e já está em sua casa. Foram duas semanas muito difíceis, mas posso afirmar que a família sai desta com os laços de amor mais fortalecidos. Obrigada a todos vocês, amigos e freqüentadores do blog, que se preocuparam e deixaram comentários tão carinhosos. Matu está certo quando diz que "não existe amigo virtual, o que existe é o amigo que você ainda não viu o rosto". Continuarei sem passar por aqui durante mais um período, pois amanhã irei para a casa de meus pais onde ficarei mais uns dias. Por enquanto não tenho condições de agradecer individualmente os comentários, e-mails e mensagens de Páscoa, mas assim que puder o farei.
Valeu pessoal! Breve estarei de volta! Muitos beijos!
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